Presentes em fachadas, varandas ou ambientes internos, os elementos vazados têm a importante função de garantir a privacidade sem comprometer a iluminação e a ventilação, além de criar efeitos visuais diferenciados.

Os elementos vazados sempre estiveram presentes em nossa cultura arquitetônica. Trazidos ao Brasil pelos portugueses, os muxarabis já eram amplamente utilizados no Brasil Colonial, com a intenção de bloquear parcialmente a visibilidade dos ambientes e auxiliar no controle da temperatura.

Originados da arquitetura árabe, onde tinham a principal função de bloquear a visão do ambiente interno sem obstruir a visão do ambiente externo, os muxarabis nada mais são do que fechamentos em forma de treliça, normalmente de madeira. “Adaptados ao nosso clima tropical, os muxarabis foram e ainda são utilizados, também, para proteger os ambientes da incidência solar e, ao mesmo tempo, permitir a passagem de luz e ventilação, trabalhando como um importante elemento de controle da temperatura”, explica a arquiteta Vanessa Spina.

Inspirados pelos muxarabis, os cobogós são elementos vazados de origem nacional. Criados em Recife na década de 20, as peças vazadas de concreto nasceram com objetivos similares aos dos muxarabis, sempre pensando em maneiras diferentes de garantir a privacidade sem obstruir completamente a visibilidade, a iluminação e a ventilação. No entanto, atualmente, esses elementos adquiriram uma diversidade de cores, formatos e materiais, oferecendo diferentes ambiências e sensações aos espaços onde são utilizados.

“Os modelos tradicionais, moldados em concreto, ainda são utilizados e trazem uma atmosfera mais brutalista ao ambiente, principalmente quando não contam com a aplicação de pintura ou acabamento, deixando o material aparente em suas propriedades.

Embora encontrados  freqüentemente em construções mais simples, onde a função é mais importante do que o valor estético da peça, os modelos tradicionais podem fazer parte de composições interessantes, principalmente combinado com outros materiais presentes na arquitetura brutalista como o vidro, o metal e as pedras naturais”, sugere a arquiteta.

No entanto, com a volta da ampla utilização dos cobogós nos últimos anos, os modelos tradicionais foram repaginados e aparecem com uma variedade de desenhos, que fogem das antigas peças quadriculadas. Esses formatos podem ser combinados em composições criativas e inusitadas, garantindo um ar contemporâneo às peças. Além disso, o concreto foi substituído por uma série de materiais, como a madeira, a cerâmica, o vidro, o gesso e até mesmo o aço.

“A escolha da peça se dá pela análise da ambiência que se deseja criar, além da funcionalidade que se pretende atingir”, explica Vanessa Spina. “Se a função for a apenas decorativa, por exemplo, podemos ousar um pouco mais na escolha dos formatos e materiais, utilizando de cores, texturas e desenhos variados para compor o ambiente.

No entanto, se o elemento vazado for utilizado com uma finalidade mais específica, como a de propor uma barreira visual, por exemplo, é importante que se estude o formato ideal de acordo com a distância e a altura do observador, garantindo a funcionalidade da peça.”

Além de bloquear parcialmente a visão, os elementos vazados podem ser utilizados com a função de delimitar ambientes de uma forma mais leve, principalmente em espaços internos. Esse artifício pode ser utilizado quando se deseja montar dois ou mais ambientes em um grande espaço aberto, mas não é necessário o bloqueio visual ou deve-se permitir a passagem de luz e ventilação, por exemplo.

“Nesse caso, os painéis vazados de madeira, gesso ou até mesmo metálicos aparecem como alternativas interessantes, pois ocupam menos espaço e, muita vezes, permitem uma instalação mais simples e limpa. Estes podem ser feitos sob encomenda, permitindo que o usuário, o designer ou o arquiteto criem livremente o desenho que desejam utilizar. Além disso, esses painéis podem ser móveis, permitindo que o usuário tenha controle de quando e como quer delimitar o ambiente”, indica Vanessa.

Visualmente, os elementos vazados podem ser trabalhados juntamente com a iluminação natural e artificial, criando jogos de luz e sombra que valorizam as peças e o espaço. “Quando utilizado em fachadas, por exemplo, os painéis vazados criam sombras internas durante o dia, que se movimentam e trazem vida ao ambiente”, explica a arquiteta.

“Já durante a noite, é interessante a utilização de iluminação artificial interna para que se consiga um efeito externo interessante, exaltando as peças vazadas. O mesmo pode ser feito em ambientes internos carentes de luz natural, com a utilização da luz artificial em diferentes posições para a criação de diferentes ambiências”, complementa a arquiteta.

Ainda nas fachadas, a utilização de elementos vazados pode ser um artifício interessante para garantir o conforto térmico dos usuários, sem perder a vista da cidade ou a qualidade do ambiente. Quando utilizados da maneira correta, os painéis vazados podem bloquear parcialmente ou até mesmo integralmente a incidência solar, permitindo a ventilação constante. “Nesse caso, é importante que se estude o ângulo de incidência solar na maior parte do dia, com o intuito de escolher ou projetar uma peça com o formato ideal para o bloqueio do sol.

Além disso, a ventilação proporcionada pela utilização de elementos vazados na fachada é intensificada quando os elementos são posicionados em paredes opostas, permitindo a ventilação cruzada. Também é interessante a instalação desses elementos em alturas diferentes, de forma que o ar quente possa sair pelas aberturas mais altas enquanto o ar fresco entra pelas mais baixas”, finaliza Vanessa.